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8/11/2016 - Campinas - SP

É preciso transformar a prescrição médica num objeto de conversa




da assessoria de imprensa 

De repente, ela se viu cuidando de 300 pacientes com transtornos mentais graves no Centro de Atenção Psicossocial (Caps) do Rio de Janeiro. Era a única docente médica que estava trabalhando lá. “Tive que responder pela assistência a esses pacientes, que ‘caíram’ no meu colo, e fiquei com eles até que os novos médicos chegassem, cinco meses depois”, relatou Erotildes Leal. Psiquiatra da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e colaboradora na pós-graduação de Saúde Coletiva da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, Erotildes contou sua experiência na mesa-redonda "Valores em saúde mental" realizada nesta segunda-feira (7) no Centro de Convenções da Unicamp, no Fórum Permanente Vida e Saúde: “Perspectivas filosóficas sobre saúde mental e psiquiatria”.

O evento foi promovido pela Coordenadoria Geral da Universidade (CGU) e organizado pela Faculdade de Ciências Médicas (FCM). A conferência de abertura do Fórum contou com a presença do professor norte-americano John Sadler, da The University of Texas Southwestern Medical Center, um dos principais referenciais no mundo no estudo de valores em psiquiatria. Ele abordou as metafísicas do senso comum como variáveis e limitantes culturais no discurso da saúde mental. Também participaram da abertura o diretor da FCM, Ivan Toro, o diretor-associado, e Roberto Teixeira Mendes, além de Cláudio Banzato, um dos organizadores do fórum e docente do Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da FCM.  Conheça a programação completa do fórum.

Para Erotildes, essa experiência de cuidar de tantos pacientes, de uma hora para outra, foi enriquecedora e, segundo a especialista, um dos maiores desafios foi transformar a prescrição médica num objeto de conversa com a equipe e com os pacientes. “Tradicionalmente, supomos que os pacientes devem cumprir aquilo que os profissionais acham melhor para eles. Mas essa experiência me mostrou que é necessário aprofundar esse diálogo com os pacientes sobre aquilo que eles experimentam em seus tratamentos", salientou. Ela acredita que é preciso radicalizar a centralidade de quem é tratado para melhor direção do tratamento. "Os médicos e profissionais da saúde costumam pensar na indicação de um medicamento como um binômio muito simplista, de custo-benefício. Vai ser bom ou ruim, quais são os efeitos colaterais e os pontos negativos. Essa racionalidade é pequena diante dos determinantes de escolha na vida e estão em jogo inclusive o humor, a força da família, a expectativa do paciente". 

De acordo com Banzato, muitos assuntos da saúde mental e da psiquiatria trabalham com questões bastante complexas quando se presta assistência aos pacientes. As bases científicas dos tratamentos têm avançado, mas é necessário avançar conceitualmente, lidando com vários construtos e conceitos de forma mais sofisticada. A Psiquiatria não trata somente dos aspectos biológicos. Trata ainda dos biográficos, das narrativas, como se integra tudo isso numa prática ética, baseada em evidências científicas que sejam informadas de forma conceitual e sensível a questões culturais. “Há uma diversidade de valores na sociedade em termos do que as pessoas aspiram. A ideia é informar melhor esse debate, para que ele seja menos maniqueísta, para que toda complexidade que esteja em jogo seja melhor entendida. Em outras áreas, é possível não lidar de maneira tão intensa e íntima com temáticas subjetivas e íntimas. Mas isso é incontornável na área da Psiquiatria, por isso a necessidade de compreendê-las em sua globalidade", afirmou o professor Banzato.



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